Estudo aponta fragilidade no caráter laico em escolas públicas do Recife

Pela ASCOM – UFPE

Em sua dissertação de mestrado “Diversidade religiosa na escola pública: um olhar a partir das manifestações populares dos ciclos festivos”, aprovada pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia, a pesquisadora Maria Edi da Silva expôs a fragilidade do caráter laico em escolas da rede pública do Recife. Foi a partir da observação de situações, como a da aluna que é impedida de dançar quadrilha matuta pela mãe evangélica e da confusão gerada pelo afixamento de um crucifixo na secretaria da escola, que a historiadora Maria Edi da Silva se debruçou sobre como os festejos populares são tratados na escola pública diante das diversidades de religiões.

A historiadora analisou, entrevistando estudantes, professores e lideranças religiosas e presenciando as festividades, três escolas da rede municipal do Recife, localizadas na periferia da cidade. Ela percebeu que, nos Ciclos Festivos das escolas, está muito presente a Igreja Católica, em atividades como pastoril, comemorações juninas e até no Carnaval, período que antecede a Páscoa. É visível a devoção aos santos católicos, como Santo Antônio, São João e São Pedro no espaço público, e a consequente reação contrária dos evangélicos, por exemplo.

Há muito tempo que venho me incomodando com as ausências dos estudantes nas atividades festivas na escola. Comecei a perceber que eram, em sua grande parte, as crianças evangélicas que se ausentavam por orientação dos pais e responsáveis e busquei pesquisar sob a ótica antropológica o que esse movimento [de dispersão] comunicava e comunica”, afirma Maria Edi. Segundo relata a pesquisa, orientada pela professora Roberta Bivar Carneiro Campos, para os professores e pais, enquanto a religião que aparece for a da maioria, não tem problema. Quando não é, a laicidade da escola pública começa a ser questionada.

Por ser professora da rede pública, Maria Edi observava os estudantes passarem por momentos de dúvidas na construção de sua própria identidade. Como a pesquisadora, coloca em sua dissertação, a elaboração da identidade vem da interação com o outro. Em momentos festivos, proibidos para alguns por causa das suas crenças, os conflitos aumentam. É uma situação ampla e complexa que envolve as ações do Estado laico (que a escola pública representa), a vontade dos pais das crianças e as limitações que suas religiões oferecem, e a vontade e direitos das crianças quanto a sua socialização.

Ela ainda observou, perguntando a cada criança qual sua religião, o preconceito com relação às religiões afro-brasileiras. Nenhum dos entrevistados se declarou pertencente a uma dessas religiões, as respostas se dividiram entre católicos e evangélicos. A pesquisadora concluiu que nem todas as crenças religiosas são respeitadas e contempladas nas escolas públicas. “Elementos católicos, evangélicos e até espíritas aparecem no interior da escola de forma positiva. Se os elementos afro-brasileiros aparecem, são de forma não tão positiva assim. Outras religiões, como o judaísmo, por exemplo, nem de longe aparecem”, explica a pesquisadora.

A religião dos gestores também tem influência sobre as crianças. Além do crucifixo recebido pela escola como presente, a pesquisadora destaca outra situação: “Em uma das escolas pesquisadas, a gestora se denomina espírita e ‘criou’ uma oração que pede aos ‘espíritos de luz’ que iluminem aquela escola, e todas as crianças repetem na entrada dos turnos”, relata Maria Edi.

FAMÍLIA – As influências também vêm de dentro de casa. Alguns pais privam as crianças da oportunidade de brincar e vivenciar um momento lúdico com os colegas por não acharem que esses momentos se encaixem em suas religiões. “As festas na escola representam o extracotidiano, o momento de interação e sociabilidade de que todas as pessoas precisam para extravasar suas emoções sem reservas e sem medos”, explica Edi.

Para algumas religiões, a entrada no ambiente escolar só acontece pelo viés cultural. As crianças podem conhecer um pouco sobre os orixás do candomblé ou elementos do maracatu em uma aula sobre cultura, mas, como religião, o candomblé não é naturalizado, ao contrário do que acontece com outras crenças. Segundo Maria Edi, é preciso pensar na diversidade cultural e religiosa como direitos. “É preciso um olhar atento aos aspectos educativos familiares, nos quais a orientação religiosa se inclui. Se a família segue uma determinada orientação religiosa, é necessário que a escola pública, nas pessoas dos gestores e professores, saiba respeitar e garantir o direito das pessoas que professam tais credos”, afirma Maria Edi.

» Confira a íntegra do trabalho na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações

Mais informações
Programa de Pós-Graduação em Antropologia
(81) 2126.8286
Maria Edi da Silva
mariaedi_s@yahoo.com.br

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