Fé na Sociedade

Por Luanara e  Maria Rocha  sobre a Conclusão de “As Formas Elementares de Vida Religiosa”

Em sua conclusão Durkheim vai defender a legitimidade de suas generalizações, assegurando que do estudo da forma religiosa mais simples é possível extrair elementos fundamentais que estão presentes em todas as religiões, até mesmo nas mais complexas.

Dessa forma fica clara a idéia fundamental de Durkheim: podemos “apreender a essência de um fenômeno social observando suas formas mais elementares.” (ARON. p. 497) Também são explícitas as relações entre elementos antagônicos: pensamento e ação, religião e ciência, real e ideal, individual e coletivo.

Entre alguns teóricos está difundida a concepção de que a crença é o elemento essencial da religião, os ritos ocupam espaços menores, sendo vistos como mera tradução exterior desses estados internos. Durkheim vai se opor a essa perspectiva ressaltando a importância do ritos na vida religiosa. Além do pensamento, a ação também é necessária. Os atos que aproximam o fiel de sua esfera religiosa precisam ser regulares, é com conjunto desses atos que constituem o culto, e é no culto que se consegue sentir a influência que a religião exerce.

Os crentes vêem na religião ajuda que necessitam para viver. A religião age tornando-os mais fortes diante das adversidades e fazendo-os acreditar que serão salvos de qualquer mal. A fonte de toda essa energia capaz de engrandecer os homens, é a sociedade. As forças morais e o sentimento de apoio que vinculam o fiel ao culto derivam dela.

Isso explica o papel do culto nas religiões: “É que a sociedade só pode fazer sentir sua influência, se ela for ato, e ela só é ato se os indivíduos que a compõem estão reunidos e agem em comum.’’ ( DURKHEIM. p. 495)

É evidente a importância do culto na religião, mas o culto não seria dependente da crença individual? O que levaria alguém sem fé a participar regularmente de cerimônias religiosas? Ou mesmo que participasse, seria capaz de sentir o poder que o culto emana sobre os de fato crentes?

Outro ponto importante se dá no embate entre ciência e religião. Durkheim aponta semelhanças e diferenças entre ciência e religião e a função de cada uma. A ciência derivada da religião passa a estudar a própria religião, não a nega, pois a mesma é real e não há como negar a realidade. Logo, a ciência intervém na religião quando esta pretende dogmatizar a natureza das coisas e se complementam uma vez que ‘’ a ciência é fragmentária, incompleta; avança muito lentamente e jamais está concluída; mas a vida não pode esperar. Teorias que se destinam a fazer viver, a fazer agir, são, pois obrigadas a passar na frente da ciência completando-a prematuramente’’. (DURKHEIM p. 509)

Durkheim fomenta outra discussão significante, que diz respeito ao tipo de sociedade que constitui a essência da vida religiosa. Seria a sociedade real ou a sociedade ideal? A real é aquela na qual vivemos. Assim, na sociedade real, a religião reflete sua imagem, inclusive seus aspectos ruins que são divinizados e tornam-se seus deuses maléficos. Já a ideal representa a aspiração a um mundo belo sem imperfeições.

O sagrado aparece como sobreposto ao real e o ideal tem a mesma definição, assim o homem concebe o ideal e acrescenta ao real. Quando se explica um se faz necessário explicar o outro. A sociedade ideal está dentro da sociedade real, mesmo sendo dois pólos distintos, estamos ligados às duas. A própria sociedade que incita o homem para agir cria nele a necessidade de imaginar um mundo novo acima do mundo da realidade. Sem o ideal o homem é incompleto.

Durkheim demonstra otimismo em relação ao futuro da religião, para ele há nela algo que a torna eterna, o que faz isso acontecer é a necessidade que a sociedade sente em conservar e reafirmar suas idéias e sentimentos coletivos.

Isso não significa dizer, que o objeto da fé é sempre o mesmo. As transformações sociais também geram mudanças nas crenças. Por esse motivo muitas das causas que moviam a sociedade no passado perderam o sentido. Cabe a nova sociedade criar suas próprias crenças, a partir de suas próprias necessidades, que motivem as pessoas a novamente se reunirem. A fase vivida, em que as dúvidas e incertezas predominam, é considerada por Durkheim com transitória: “Virá o dia em que as nossas sociedades conhecerão novamente horas de efervescência criadora, durante os quais novos ideais surgirão, novas fórmulas aparecerão e, por certo tempo servirão de guia para a humanidade; e essas horas, uma vez vividas, os homens sentirão necessidades espontaneamente necessidade de revivê-las de tempos em tempos.” (DURKHEIM. p. 505)

Talvez o que volte a motivar as pessoas não tenha o mesmo caráter religioso que o das antigas sociedades, talvez seja algo claramente social. O encontro não reúne crentes, reúne simplesmente cidadãos. A questão não é se a religião continuará existindo ou não, mas o que promoverá a integração e a regulação social nessa nova sociedade. “Que diferença essencial existe entre uma assembléia de cristãos celebrando as principais datas da vida do cristo ou de judeus celebrando a saída do Egito ou promulgação do decálogo, e uma reunião de cidadãos comemorando a instituição de nova carta moral ou algum grande acontecimento da vida nacional?” (DURKHEIM. p. 505)

7 Comentários

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7 Respostas para “Fé na Sociedade

  1. Novamente um texto que traz grandes reflexões, parabéns ao grupo!

    Quero comentar logo no início as questões que achei mais interessantes colocadas pelo grupo encontradas nesse parágrafo:

    É evidente a importância do culto na religião, mas o culto não seria dependente da crença individual? O que levaria alguém sem fé a participar regularmente de cerimônias religiosas? Ou mesmo que participasse, seria capaz de sentir o poder que o culto emana sobre os de fato crentes?

    Pois bem sobre o primeiro questionamento eu acredito que seja uma mescla, religião nasce da coletividade, mesmo que seu germe seja uma impressão individual sobre o mundo para se torne religião é preciso ser pregada, se assim não for ela “morre” com seu primeiro pensador. A segunda questão, tem várias respostas, mas uma das que mais noto é a influência dos círculos sociais na construção de uma fé. Sobre a terceira pergunta, eu acredito que é possível que alguém destituído de fé sinta o poder do culto, entretanto ao sentir esse poder, ele passa a acreditar naquilo que sente, pode-se perceber isso ao conversar com alguém que se converte a uma religião.

    Sobre a conclusão do texto e a pergunta do próprio autor ( boa sacada acabar assim ^^) aos olhos dos cientistas sociais, não há diferença entre o culto judeu, cristão ou pátrio, ao mesmo tempo que há diferença entre essas três manifestações da fé, pois se perguntarmos ao judeu se ele vê sua crença como algo semelhante a do cristão ele dirá muito provavelmente não e a resposta recíproca também é verdadeira. Muito provavelmente ambos tenham orgulho do país onde nasceram, mas dificilmente negariam sua fé por ele. Enfim, o que quero dizer é que apesar de aparentemente não haver diferença, de haver assim o preenchimento da mesma lacuna social, as verdades professadas diferem e revelam as disparidades entre as manifestações da fé, dessa maneira, o “ethos” contido dentro de cada um dos conjuntos religiosos ,apesar de serem vistos, só podem ser apreendidos de maneira plena quando experimentamos dele como crentes.

  2. Swellington Albuquerque

    Parabenizo o grupo.

    O texto se encaixou perfeitamente no nosso. A medotologia utilizada por Durkheim de estudar as religiões mais simples para daí entender o fenômeno religioso, foi bastante discutida ao longo do tempo e questionada também, mas a sua obra permanece como um clássico no estudo da religião. A primeira pergunta fala da dualidade entre crença individual e a união em uma igreja dos fiéis que compartilham da mesma crença, é importante também a “fé” individual, mas o que faz a religião é a coletividade, pois aquele que acredita em uma fé sente a necessidade de compartilha-la, se não a sua crença morre, porque a um reavivamento na igreja (templo, sinagoga, mesquita e etc) quando os crentes estão compartilhando crenças e permitindo seu adentramento ao mundo concreto, através dos ritos. A segunda pergunta fala sobre alguém que não professa uma fé participar de cerimônias religiosas, geralmente isso tem a ver, acredito, com a “socialização” dessa fé que permite o conhecimento dela em uma sociedade, ou até em várias, com o trabalho de digamos “iluminados” se é que posso chamar assim, que se dedicam a divulgar sua crença como, missionários, evangelistas, profetas e etc. E muitas vezes incitam ou convidam tais pessoas a pertencer a uma religião e elas podem ir por inúmeros motivos, curiosidade, conforto psicológico, em busca de respostas, em fim. A terceira pergunta está intimamente ligada a segunda, o poder sentido por essas pessoas, é digamos intangível, pois como já foi discutido por nosso grupo, não cabe aqui especulações, como já diria Shakespeare “Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que pode compreender nossa vã filosofia.” Por isso só me limitarei a ciência, é possível sentir o poder? não há respostas para isso, pois isso pertence ao indivíduo, o que se pode dizer é que existem as conversões para uma determinada religião, por vários motivos.

  3. Carlos Eduardo

    Respondendo às três questões do meio do texto:

    Acredito que de certo modo o culto na religião dependa da crença individual sim, porém, é na crença coletiva que há uma maior importância. A religião é uma instituição coletiva que se revela através de seu compartilhamento, seja de pensamentos, fé, amor…

    A questão de querer fazer parte do grupo, de querer conhecer aquilo de que todos falam, ou pelo menos os amigos mais próximos, de buscar um apoio para certos problemas são exemplos para mim de situações que levam pessoas a participar de cerimônias religiosas. Talvez isso ocorra como uma tentativa de conhecimento, tentativa de entender aquilo e trazer para si.

    Penso que a questão de sentir ou não depende da pessoa. No meu caso, durante as muitas idas a cultos pude perceber que havia algo acontecendo ali, a efervescência coletiva, ou o divino, estavam ali agindo sobre as pessoas. Porém, ao mesmo tempo, vendo que aquilo estava acontecendo, eu não sentia que aquilo influía sobre mim, como também não sentia que eu precisava daquilo, era simplesmente um sentimento coletivo que eu não compartilhava, mas que eu apenas percebia que agia sobre eles. E creio também que não nos cabe dizer quem sente e quem não sente, quem sente mais e quem sente menos, quem é crente e quem não é, para mim isso cai na questão que não se discute em religião.

  4. Rodrigues

    Parabéns aos participantes da conclusão do texto d’ “As formas elementares da vida religiosa”. É importante sublinhar os dois elementos essenciais da religião: a crença e o ritual. Segundo Durkheim, estes elementos constituem e legitimam qualquer forma de religião, seja da mais simples a mais complexas. O ritual é fundamental, pois é a ação, a prática social que oferece pistas para um estudo das formas de religião. A igreja, é o local onde se manifestará tais fenômenos, pois segundo ele não existe religião sem igreja, pois é nesta que os indivíduos estarão reunidos. A religião é coletividade, é coisa social, fato social. A própria crença individual se funda naquilo que é coletivo, externo (símbolos que são compartilhados), e nesse sentido a individualidade estaria atrelada a coletividade. Por fim, vale destacar que, com a avanço da modernidade, da sociedade de solidariedade orgânica e da racionalidade, a religião não tende a sumir, mas sim, se transformar e adquirir novas formas.

  5. Emerson da Silva

    Graça e Paz pessoal!
    Ao final do século XIX, no período de formação da Sociologia enquanto ciência, Durkheim definiu o objeto de estudo da soiologia: O fato social. O fato social consisti em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao ser humano, dotadas de um poder de coerção que exerce influência sobre o indivíduo. Para Durkheim, a religião é um fato social, ou seja ela configurase como uma representação de uma dada sociedade. Outra ideia bem trabalhada no texto são os conceitos de “sagrado e profano”. E é bastante interessante como esses conceitos se mesclam na pós-modernidade. Em determinados cultos de sociedades secretas (sociedades secretas são grupos de pessoas que se reúnem em segredo com um propósito em comum, quase nunca revelado) o sagarado e o profana se misturam, e os rituais religiosos são compostos por adoraçãoes a deuses, seguidos de orgias.

    A religião, como bem falou Durkheim, da sentido a vida das pessoas. As especulações de vida pós-morte e o consolo nesta hora não emana da ciência mas sim da religião. Outro ponto ressaltado no texto é o fato das transformações sociais também gerarem mudanças nas crenças. A título de exemplo posso citar o advento da teologia da prosperidade. Em uma sociedade capitalista marcada pela desigualdade social e pelas lutas de classes uma corrente teológica embasada,dentre outras coisas, em uma realização existencial passa a ser difundida no meio dos fiés, defendendo a ideia de que nenhum filho de Deus pode adoecer, sofrer ou ser pobre ( isso seria uma clara demonstração de ausência de fé e, por outro lado, da presença do diabo). A pobreza e o sofrimento, outrora características da cristandade, são colocadas de lado, e começa-se a produzir novas doutrinas para atender as demandas do capitalismo.

    Mesmo com todas as análises e descobertas já feitas por antropólogos, sociólogos e cientistas, a religião continua sendo um grande mistério. E como diz Henry Drummond:
    “Ciência sem mistério é coisa desconhecida; religião sem mistério é coisa absurda”.

  6. Lucas Oliveira

    Sendo o templo o lugar social em que se manifesta publicamente a solidariedade orgânica e a manifestação da fé do crente em determinado deus, se constitui o templo então lugar por excelência das manifestações sociais. Porém não podemos esquecer que é na sociedade que o fiel expressa a sua fé através de ritos e manifestações públicas relativas à sua crença e sua instituição religiosa. Na verdade, o fiel se vê atrelado a responsabilidades que possuem um caráter própria regulador e que concerne conforto psicológico e espiritual ao crente, neste sentido, além da dimensão social das celebrações públicas e de manifestação de sua fé o fiel se vê mergulhado nos costumes e crenças de tal modo que estas moldam o seu caráter e expressam um modo social diferente em cada cultura e sociedade, gerando diferentes modos de atos, pensamentos porém sob uma única consciência social ligada à estrutura da fé refletida em sua cultura e sob influência da mesma expressada nos corpos e nas relações sociais dos fiéis.

  7. Nathielly Darcy

    Gostaria de inicialmente parabenizar a dupla pelo excelente trabalho, que que soube reunir muito bem as noções principais da conclusão de ” As formas Elementares da Vida Religiosa”
    Durkheim, partindo a premissa de que devemos observar as coisas a partir das estruturas mais simples, nos leva a ver na estrutura das religiões primitivas, elementos pertinentes ás religiões mais complexas. O autor diz: ” Por quanto seja simples o sistema que estudamos , encontramos nele todas as grandes ideias e todas as principais atitudes rituais que estão na base das religiões , até das mais avançadas; distinção das coisas em sagradas e profanas , noção de alma, de espírito, de personalidade mítica, de divindade nacional e até internacional, culto negativo com as práticas ascéticas…” (DURKHEIM, pág 492)
    O resultado do estudo das religiões não deve ser particular, de modo que se adeque a compreensão da religião no geral.
    Chamando a atenção para a importância não só da crença, mas também do rito, que aparecia apenas como tradução exterior, o autor diz que essa exteriorização do rito, já está tão difundida, que os debates acerca do tem ” Religião”, se dão mais no âmbito de saber se ela pode ou não conciliar-se com a ciência. “Ou seja, se ao lado do conhecimento científico, há lugar para outra forma de pensamento especificamente religioso.”
    O texto nos leva a fazer uma rica reflexão por sobre a religião, já que como disse Durkheim, “As forças religiosas são, portanto, forças humanas, forças morais.

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