Esboço de uma teoria geral da magia

Por Alice, Giovana e Hevellyn sobre os capítulos “Históricos e Fontes”, “Definição de Magia” e “Conclusão” do Esboço de uma teoria geral da Magia, de Marcel Mauss 

Marcel Mauss inicia seu texto “Esboço de uma teoria da magia” com uma avaliação do que já foi feito em relação à teoria da magia. Para ele, Tylor não produziu uma teoria da magia, pois explica a magia através do animismo. Porém, nos infora que Tylor foi quem primeiro falou sobre a magia simpática. Quem será considerado como autor de uma teoria da magia será Frazer, pois trouxe elementos que são mencionados até hoje como os de contágio e simpatia. Frazer foi criticado por Mauss, assim como havia sido por Malinowski, porque parte do princípio da superação da magia pela ciência. Outra crítica feita à Frazer é por ele atribuir apenas à magia atos simpáticos (que conta com a aplicação das leis da similaridade e da contigüidade), pois para Mauss podemos encontrar atos simpáticos na religião também. 

Ao escrever sobre a definição de magia, Mauss afirma que não podemos chamar de mágico um fenômeno, apenas por este ter sido assim considerado por meio de uma interpretação subjetiva. Devemos considerar mágico aquilo que é considerado mágico pela comunidade, para “toda sociedade e não apenas uma fração”. Além disso, para ser considerado magia deve envolver agentes, atos e representações. Os atos ritualísticos são repetidos por tradição. E tal repetição é necessária para serem considerados atos mágicos, assim como a crença, de toda a comunidade, na eficácia dos ritos.

Os atos rituais podem ser confundidos com outros ritos, como os atos jurídicos, mas para que sejam atos rituais mágicos, devem ter uma eficácia, devem produzir algo e esse algo vai além de contratos e convenções . 

Mauss separa o rito mágico do rito religioso, eles tem agentes diferentes e são feitos em lugares diferentes. A melhor forma de distinguir magia e religião é através de dois polos: o malefício e o sacrifício. A magia seria entendida como uma ‘religião’ para as necessidades elementares da vida. Outra importante distinção feita pelo autor é que a prática religiosa é sempre prevista e oficial, ela faz parte de um culto. Há um aspecto obrigatório, mesmo sendo voluntário, por exemplo: uma pessoa poderia dizer “a missa é voluntária, mas eu tenho que ir”. No caso do rito mágico, há uma característica irregular, anormal e mais importante: para realiza-lo, há uma necessidade e não obrigação moral.

O parentesco da magia é com a religião, por terem similitudes em relação às suas finalidades. Mas a magia também tem em certo grau parentesco com as técnicas e as ciências, pela força das idéias mentais que é empregada na técnica e pela importância dada ao acúmulo de conhecimentos. “Mas enquanto a religião, por seus elementos intelectuais, tende para a metafísica, a magia, que descrevemos mais apaixonada pelo concreto, dedica-se a conhecer a natureza”.

 Mauss compreende a magia como a primeira forma de representação coletiva e que posteriormente se torna o fundamento do comportamento individual.

4 Comentários

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4 Respostas para “Esboço de uma teoria geral da magia

  1. Emerson da Silva

    Garça e Paz pessoal!
    Parabéns pelas postagens ficaram ótimas!
    Frazer, considerado como autor da teoria da magia, foi criticado por Mauss e Malinowski por falar da superação da magia pela ciência. Esta concepção de Frazer nos faz lembrar um pouco a teoria dos três estados de Augusto Comte, onde ele afirma que o espírito humano para explicar o Universo teria passado por três estados: O estado teológico e fictício, onde o homem explica a natureza através da intervenção de seres sobrenaturais; O estado metafísico, que caracteriza-se na substituição dos deuses pelos diferentes tipos de força: força física, força química, forças vitais, culminando na reunião de todas essas forças em uma única chamada de natureza. Aqui, ha uma desconstrução da ideia de subordinação da natureza e do homem ao sobrenatural. E por fim o estado positivo, este se baseia na subordinação da imaginação e da argumentação à observação. O conceito de causa, no estado positivista, é substituído pelo de lei, onde procura-se explicar encadeamentos dos fatos pelas suas leis.

    Outro ponto interessante do texto é a ideia de que : para serem considerados mágicos os atos ritualísticos devem ser repetidos tradicionalmente. A título de ilustração, seria interessante ressaltar alguns ritos que perduraram na nossa sociedade, dentre tantos, existe o de acender fogueiras no dia de São João Batista. As festas ocorrem em junho porque na Europa este é o mês do Solstício de Verão (época em que o sol passa pela sua maior declinação boreal – dias 22 ou 23 de junho), e os povos pagãos comemoravam a chegada desta estação com rituais que invocavam a fertilidade para garantir o crescimento da vegetação, na fartura, na colheita e clamar por mais chuvas. Eles achavam que dependiam dessas manifestações para evitar uma calamidade.Costumavam acender fogueiras e tochas por acreditarem que assim livrariam as plantas e colheitas dos espíritos maus que poderiam impedir a fertilidade. Esses rituais persistiram através dos tempos e na Era Cristã não houve como apagá-los. A Igreja Católica, então, se viu obrigada a adaptá-los às comemorações do dia de São João Batista que, coincidentemente, teria nascido em 24 de junho, dia próximo ao solstício.

    A ideia de ritual presente no texto tangencia a diferenciação entre algumas técnicas e rituais religiosos, embora tendo algumas semelhanças (a série de gestos do artesão, bastante parecida com a séries de gestos de um mágico) atos rituais mágicos devem produzir uma eficácia além de contratos e convenções sociais. Os ritos religiosos tem um caráter mais social, ao ponto de provocar determinadas sanções nos que se recusarem a praticá-los. Já os ritos mágicos dependem da necessidade do praticante ou da pessoa que o procurou, percebesse neste algo mais individual. A título de Ilustração,( para essa individualidade da magia) o poeta brasileiro Augusto Branco escreveu: “Para realizar maior parte da coisas que desejamos, precisamos recuperar a magia da infância, precisamos recuperar o Mago que há dentro de nós, e fazer valer a crença de que confiando exclusivamente em nós mesmos, podemos ultrapassar qualquer fronteira”!

    A magia possui alguns pontos de similitude com a ciência, dentre tantos podemos destacar as fórmulas empregadas nos rituais mágicos, que expressam um determinado meio racional para a execução da prática.

  2. Para mim é por vezes estranho essa separação que é dita pelo autor, em que a Religião é mais obrigatória e comum, e a magia é quase que uma raridade e ruptura. Acredito que esse conceito se encaixaria facilmente nos moldes comparativos entre religiões, na qual o outro é magia e o meu é religião, mas que de fato o termo “magia” acaba sendo usado de modo pejorativo.
    Entretanto para isso ele afirma que a magia existe a partir do consenso com o grupo de que aquilo posto é classificável como tal. Portanto mesmo que se veja que atitudes sejam mágicas, o ponto de vista do antropologo é abafado pelo o que o nativo afirma ser.
    De fato não consigo compreender essa divisão, tendo em vista que a observação de fora também é necessária e fundamental para a construção do conhecimento cientifico.
    Até que ponto a voz do nativo deve ser a palavra final? Vejo que toda religião possui sua magia, e mesmo que ela seja negada pelos religiosos que acreditam em uma determinada religião o motivo e a razão para se estrar frequentando tal religião é o efeito dela sobre os sujeitos. A busca é por esse efeito, e essa efeito transformador nada mais é para mim do que a magia.

  3. Sandro Freitas

    Primeiramente, gostaria de parabenizar as colegas pela exposição do texto de Mauss. Também gostaria – já corroborando com a apresentação – de ressaltar alguns pontos fundamentais neste importante texto que, ao longo de mais de um século, influenciou as análises da antropologia, em especial, seus estudos voltados à religião.
    Em sua proposta de desenvolver um levantamento sobre a produção de conhecimento ligada ao tema “magia”, Mauss ao mesmo tempo em que reconhece a importância, na obra de Frazer, da questão de transmissão da magia por meio do contato e da mimese, o critica em diversos aspectos. As críticas se fundamentam tanto pelo fato de Frazer ter desconsiderado diversos aspectos essenciais da magia, quanto pelo seu modelo evolutivo – que explicaria a superação da magia pela religião. Mauss vai afirmar que a melhor forma de distinguir magia e religião é através da distinção: Sacrifício (religião) x Maleficio (magia).
    Por não possuir, ele vai defender a ideia da execução de um inventário sobre as diversas magias existentes e afirma que para realizar tal empreitada, vai proceder sua análise através do modelo comparativo. Nesse sentido, o que Mauss é que aqueles indivíduos que realizam o exercício da magia, já têm uma condição distinta no interior do grupo que desta forma os trata como mágicos. Diante disso, se constitui como uma construção social, já que não é que escolhe ser mágico, mas o é aquele que possui as qualidades já reconhecidas pelo grupo. Para Mauss, é necessário que se defina a magia entendendo-a como aquelas ações que assim são caracterizadas por todos do grupo (assim como foi mencionado no texto acima), e não apenas por uma parcela.
    Em resumo, Mauss vai defender que a magia não pode ser entendida pela forma de seus atos, mas pelo contexto a qual ela é praticada. É necessário entende-la como um fato social total.

  4. Acredito que essa forma de diferenciar magia e religião a dotada por Mouss acaba por cair num viés, diferenciar as duas apenas usando os informes dos membros da sociedade não basta, há a necessidade de um olhar externo para que se possa observar de forma mais nítida as estruturas. Atualmente, acredito, que seria impossível obter um consenso do que seria magia na nossa sociedade. Religião e magia acabam por se misturar de uma forma que é muito difícil a dissociação.

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