Jazigo de associações de leigos em Juazeiro do Norte une religiosidade e caridade

Pela ASCOM – UFPE

“Olhei a fachada desgastada do jazigo, como se quisesse penetrar com os olhos. Diante de um grande número de pessoas, cantei para meu pai uma música de que ele gostava muito”. É assim que Joaquim Izidro do Nascimento Junior, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPE, faz a introdução da dissertação “‘Rogai por nós’: religião, morte e antropologia”. Do despertar das lembranças de histórias de vida e de morte que experimentou em sua terra natal, o cientista social, sob a orientação da professora Roberta Bivar Carneiro Campos, buscou traçar elos entre romeiros de Juazeiro do Norte e a atuação da Igreja Católica na região, inicialmente por Padre Cícero e posteriormente pela representação Salesiana.

Juazeiro do Norte era um distrito da cidade do Crato e o Padre Cícero foi um dos responsáveis pela emancipação e independência da cidade. A figura do padre assumiu características místicas e ele passou a ser venerado pelo povo como um santo, por conta do chamado “Milagre de Juazeiro” – quando Padre Cícero deu a hóstia sagrada à beata Maria de Araújo, a hóstia teria se transformado em sangue. Hoje, a cidade é considerada um dos maiores centros de religiosidade popular da América Latina, atraindo milhões de romeiros todos os anos.

As missões de religiosos estrangeiros no período do Brasil Colônia e a trajetória de Padre Cícero estão intrinsecamente ligadas às manifestações e sentidos religiosos de Juazeiro. “A Igreja Católica agiu em situações de controle diante da intepretação dos milagres em Juazeiro. As punições aplicadas ao Padre Cícero e a chegada dos Salesianos, hoje representados pelas associações, resignificaram e modificaram as práticas religiosas, mas não conseguiram apaga-las”, afirma Joaquim.

As maneiras de catequizar o povo foram potencializadas pelo medo do fim do mundo e da morte como um ato de perdão para se conquistar o reino dos céus. E é na morte que o pesquisador encontra motivos para descobrir a simbologia do ato devocional dos fiéis. Joaquim partiu da etnografia dos grupos religiosos Associação Nossa Senhora Auxiliadora e Associação São João Bosco para identificar os aspectos sociais e simbólicos produzidos entre os membros, líderes e instituições religiosas oficiais e como eles se relacionam com a cidade, célebre pelas inúmeras romarias e peregrinações. Essas entidades contam com um jazigo erguido no local onde o Padre Cícero está sepultado, na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde fica a Capela do Jazigo das Associações (foto abaixo).

Baseado nas análises dos documentos das associações e nas entrevistas e reuniões de que participou, Joaquim encontrou reprodução de histórias, costumes e tradições dos antigos romeiros e destaque para o assistencialismo representado pelo auxílio funeral e para realização de exames médicos. O sepultamento em túmulos das associações é visto por muitos associados e líderes como ato de caridade.

“Ceder o espaço é oferecer oportunidade de descanso do corpo na hora da morte num testemunho de piedade e misericórdia”, frisa o autor. É ainda uma possível resposta ao apelo “Rogai por nós”, repetido na Ave Maria como uma súplica das pessoas em pedir amparo ao divino. Mesmo considerando o jazigo como sendo a materialização do elo entre o Padre Cícero e os associados, Joaquim acredita que “esse elo transcende a materialização: ele atinge desde as motivações dos primeiros missionários até os associados que não possuem devoção ao padre Cícero”.

» Vídeo: Religiosidade em Juazeiro é tema de pesquisa
» Confira a íntegra da dissertação na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UFPE

Mais informações
Joaquim Izidro Nascimento Junior
joaquim.izidro@gmail.com

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