O feiticeiro e sua magia – Claude Lévi-Strauss

Por Rodrigues e Hevellyn

Com toda certeza Claude Lévi-Strauss foi um dos maiores antropólogos da segunda metade do século 20. Com sua produção intelectual contribui para o desenvolvimento da antropologia estrutural. Sofreu bastante influência do linguista Jakobson, pois foi a partir desse encontro que, desenvolveu o estruturalismo, e estabeleceu o entendimento de que o fenômeno cultural é linguagem como comunicação, ou seja, a cultura como comunicação. A partir dessa direção, Strauss trabalha com a concepção de que é o inconsciente que produz o social. É nossa estrutura mental que o organiza o tempo e o espaço.

Levando em contas essas considerações, podemos perceber que o texto “ O feiticeiro e sua magia”, apresenta uma pista para a compreensão do método Levi-straussiano. No ensaio, o antropólogo trata do xamanismo e da sua eficácia. A partir disto, identificou a manipulação psicológica feita pelo xamã e concluiu que as práticas mágicas realizadas pelo feiticeiro tem sua eficácia:

Não há, pois, razão de duvidar da eficácia de certas práticas mágicas. Mas, vê-se, ao mesmo tempo, que a eficácia da magia implica na crença da magia, e que esta se apresenta sob três aspectos complementares: existe, inicialmente, a crença do feiticeiro na eficácia de suas técnicas; em seguida, a crença do doente que ele cura, ou da vítima que ele persegue, no poder do próprio feiticeiro; finalmente, a confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam à cada instante uma espécie de campo de gravitação no seio do qual se definem e se situam as relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça ( LÉVI-STRAUSS, 1975, p. 194).

Partindo desta referência, compreendemos que Lévi-Strauss coloca três aspectos relativos a crença e eficácia da magia. Em primeiro lugar, deve-se levar em conta a crença do feiticeiro na sua própria magia; em segundo lugar, a crença do enfeitiçado na magia do feiticeiro; em terceiro, a crença coletiva na magia do feiticeiro.

Partindo dessa direção, “a integridade física não resiste à dissolução da personalidade social.” (Idem, p. 194).  Lévi-Strauss demonstra, passo a passo, a veracidade da frase acima, utilizando-se como exemplo, um homem que tem consciência que foi alvo da magia, neste caso, maléfica. Além da própria crença na força da magia, este homem percebe ainda, a certeza de todo o grupo, incluindo parentes e amigos, que ele já está condenado e ainda exerce perigo para os demais, que por sua vez, o isolam com medo de serem contagiados pelos malefícios da magia que recaio sobre ele.   Além de mantê-lo distante, o grupo, com a certeza de sua morte futura, passa a tratá-lo como já morto e a realizar todos os ritos sagrados que são comumente realizados após a morte, como se realmente ele já estivesse morto. O enfeitiçado ver-se então desesperado de medo, isolado de todos e totalmente distanciado das representações da sua antiga vida social.

Strauss então nos fornece os dados fisiológicos, mostrados por Cannon, decorrente do estado em que o homem que se acha enfeitiçado, passa a desenvolver. O medo vem acompanhado de uma atividade intensa do sistema nervoso simpático, que poderia ser positiva, se o enfeitiçado não acreditasse cegamente na sua desventura e exercesse uma resposta. Porém, como ele se considera um moribundo, não reage e a atividade do sistema nervoso simpático se desorganiza, podendo ocorrer uma diminuição do volume sanguíneo e conseqüente queda de pressão e gerar danos irreparáveis para os órgãos da circulação. E por acontecer quase sempre, a rejeição de alimentos e bebidas, por pessoas tomadas pelo desespero e medo, o estado fisiológico tende a se agravar e levar à morte.

O antropólogo francês mostra que, a eficácia da magia perpassa pela crença na mesma. E quanto a isso, ele nos apresenta três aspectos fundamentais (como já mostramos acima): a crença do feiticeiro, a crença do doente (ou vítima) e a crença da coletividade, ou seja, das pessoas do grupo. É muito interessante perceber como a força coercitiva da crença coletiva é capaz de construir e alterar verdades inteiramente assimiladas subjetivamente. Como percebemos no caso em que um feiticeiro simula uma viagem nas asas de um trovão para justificar “uma atitude profana”, que no caso, foram encontros com antigos compatriotas. Porém, tal versão recaía para o lado das conjecturas, enquanto a versão em que o trovão o havia levado para longe dali, recaía sobre a subjetividade coletiva.

E apesar de nos parecer não aceitáveis, Strauss nos mostra a necessidade da incorporação do esquema presente na cultura do grupo e entender que a assimilação dos fatos é a única forma de objetivar os estados subjetivos. Apenas com a assimilação da “personalidade social” do grupo, é possível ter o entendimento subjetivo de tal coletividade, e seria possível entendermos a compreensão e aceitação de fatos que, para os  não nativos, seriam simplesmente inaceitáveis.

Um outro exemplo muito interessante, que nos fará entender melhor a necessidade de ratificar o próprio sistema de crenças da comunidade, no caso, a crença na existência e eficácia da magia, é o da observação feita pela investigadora M. C. Stevenson, onde um rapaz acusado de feitiçaria, foi levado ao tribunal para se defender e inicialmente nega que tenha quaisquer contato com magia, o que o levaria à morte. Temendo tal fim, muda sua defesa e conta diversas versões para o fato de ter supostamente levado uma mocinha a ter uma crise nervosa através de poderes mágicos. As versões são contadas com riqueza de detalhes crescentes e crescente também é seu próprio envolvimento ao encenar cada versão. E é perceptível que o grupo que o julgava, não estava, (com o passar do tempo, das versões e dos aumentos dos detalhes) interessado em reprimir o crime, mas sim em atestar a realidade do sistema, que por sinal, tornou possível a existência do suposto crime.

Mantendo o foco na questão da assimilação da subjetividade coletiva, é muito interessante o exemplo utilizado por Levi-Strauss, para demonstrar que essa capacidade de aceitar fatos, não compatíveis, como plausíveis, pode se mostrar muito próximo de nós, quando ele cita a motivação dúbia para o início de uma guerra: ou a última forma para se conquistar a independência ou como o resultado das maquinações dos fabricantes de armas. As duas versões podem ser aceitas como verdadeiras, mesmo elas sendo incompatíveis entre si e ainda, a depender da ocasião, tal crença pode ainda passar de uma a outra, coexistindo, obscuramente, na consciência.

Trazendo a abordagem lévi-straussiana para a nossa realidade prática, podemos comparar o trabalho do xamã ao do psicanalista, só que com uma diferença no direcionamento para a cura do doente. Nas práticas xamânicas, o doente e o feiticeiro precisam ter crença na magia que está sendo realizada, para que o doente obtenha a cura; já durante as sessões de psicanálise, o paciente numa relação de conversa com o psicanalista, e através de uma introspecção psicológica de si mesmo chega a “cura” ou a resolução do problema.

6 Comentários

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6 Respostas para “O feiticeiro e sua magia – Claude Lévi-Strauss

  1. Parabéns o texto foi sucinto e passou o que acredito ser de mais essencial na argumentação de Levi-Strauss, que é a ideia do crer como combustível da eficácia da magia.

    E lendo o post me veio a mente um questionamento, será que esse mesmo sentimento, ou seja, a crença que produz a eficácia da magia, não perpassa o desenvolvimento do processo médico que leva a cura?

    Talvez sim, obviamente guardando as diferenças… Afinal, ao pensarmos todo universo médico podemos fazer um paralelo, pois o médico, como o xamã, acredita no que faz, o doente acredita na sabedoria do médico, assim como a comunidade acredita na ciência médica, apegando-se aos seus sucessos, que legitimam um conhecimento e ordenam a realidade em uma esfera de conhecimento; e excluindo, ou ao menos, tolerando e racionalizando os fracassos.

    Mas, essa é minha impressão o que vocês acham?

  2. LUIZ TAGORE

    Parabéns aos autores do texto, que sintetiza muito bem a ideia central.
    Observo que o texto, desde o seu início, se atém aos elementos que compõem o sistema de eficácia da magia, a tripla experiência, composta pela fé do feiticeiro que acredita na eficácia da sua ação, pelo comportamento do enfeitiçado(ainda que apontado como sendo o elemento menos importante do sistema) e pela atitude do grupo.
    Preliminarmente, é apontada a importância do comportamento do grupo social no qual o indivíduo está inserido, notadamente, quando ele é “alvo” de uma magia negativa, onde se desenvolve na comunidade um sentimento de repulsa àquele que apenas espera a morte e que pode até ser um perigo aos demais, verifica-se que o papel do consensus coletivo cumpre uma função essencial no processo de credibilização da ação do feiticeiro contribuindo para a sensação de terror que acomete o enfeitiçado, rompendo “os seus elos familiares e sociais”.
    Em certa medida há uma constatação de que a construção da crença percorre um caminho inicialmente cético por parte de alguns dos membros componentes deste sistema, mas que logo envereda para uma perspectiva que busca se arvorar dos poderes do feiticeiro, como no caso trazido por Matilda C. Stevenson, que conta o caso de um jovem que ao segurar as moças de uma criança, esta foi acometida de uma crise nervosa, tendo o garoto sido acusado de praticar feitiçaria.
    Ao ser levado a julgamento pelo seu grupo, ele inicialmente nega, mas ante o risco de ser condenado à morte, não ver outra opção que não de se assumir, tal atitude é também marcada pelo comportamento dos juízes que em certo momento se mostram mais interessados em conhecer as técnicas do jovem do que propriamente em julgá-lo, observa-se que o jovem passa a ser imerso em sua nova função a ponto de ser questionado de que modo ele não foi absorvido pelo seu próprio personagem, tendo se tornado um feiticeiro de verdade.
    Tal raciocínio também é apresentado no caso de Quesalid, um indivíduo que questiona o poder dos xamãs e resolve se inserir em um grupo formado por eles com o fito de apurar a veracidade das suas práticas, verifica Quesalid que as suas suspeitas eram procedentes, sendo as suas lições iniciais marcadas por truques, representações teatrais, e até mesmo técnicas de espionagem para obtenção de informações sobre a origem e o sintomas dos males sofridos por alguém.
    Observa-se que a sua descrença inicial, que logo é transformada na certeza de que tudo é uma falácia, torna-se(ou retorna a ser) apenas uma desconfiança quanto a alguns xamãs, carregando, Quesalid, a certeza de que existem xamãs de verdade, passando, inclusive, a atribuir eficácia a métodos que anteriormente foram ridicularizados por ele mesmo.
    Ainda que Levi-Strauss polarize os elementos componentes do sistema de eficácia, atribuindo menor eficácia ao comportamento do enfeitiçado, não como não apontar uma das análises, que notadamente é uma das que marca o texto, trazida a partir dos trabalhos do Fisiologista Norte-Americano Walter B. Cannon, que em um dos seus estudos analisou a importância dos elementos psico-fisiológicos do indivíduo enfeitiçado. Aponta as análises de Cannon que as sensações de angústia e medo que acometem o indivíduo, que sabe ter sido alvo de uma magia, culminam em uma atividade “intensa do sistema nervoso simpático”, frisa Levi-Strauss que tal constatação pode ser confirmada pela morte aparentemente inexplicável de indivíduos que passaram por grandes traumas psicológicos, é aquilo que o senso comum nomeia de “morreu de desgosto”.
    A partir da leitura deste texto, não há como dissocia-lo do papel cumprido por profissionais médicos, de como a expectativa de cura por parte do paciente é um elemento importante do próprio processo, neste mesmo sentido, Levi-Strauss cita Arthur Morley em uma nota de rodapé, que menciona um caso de um aborígene australiano que após ser acometido por um enfetiçamento foi levado a um hospital e curado, tendo sido essa cura atribuída ao fato de que o aborígene considerou a “magia” do homem branco superior à daquele que o enfeitiçou.

  3. Ana Patrícia Braga

    O exemplo citado por Levi-Strauss do jovem acusado de feitiçaria é, para mim, o mais interessante, pois mostra como a coletividade conduz a própria aceitação do acusado em relação ao suposto poder sobrenatural! Como o grupo relatou bem, a tribo estava interessada mais na veracidade do sistema do que na repressão do crime. De acordo como a investigação ia se dando, o jovem, cada vez mais, incorporava o papel imposto de feiticeiro até encarnar de fato esse papel na sociedade. Porque também era interessante para ele a coerência do sistema, o qual estava envolvido !

  4. Sandro Freitas

    Assim como os colegas, deixo aqui meus parabéns a dupla que na apresentação do texto de Lévi-Strauss apresentou sucintamente os aspectos mais relevantes para a discussão.
    Aproveitando o gancho para reflexão deixado pelo grupo no ultimo paragrafo – e já desenvolvido por Álvaro -, me questiono até que ponto podemos comparar as práticas que envolvem as atividades do Xamã não apenas com as do psicanalista ou do médico, como também com a prática do próprio antropólogo. Minha reflexão recai sobre a questão da crença que, como no xamanismo, os dois polos – o da psicologia interna do xamã e o consenso coletivo – levam a uma legitimação do processo de objetificação dos males inacessíveis aos “pacientes”. Nesse sentido, me questiono se também não há uma objetificação na prática antropológica do contato com a alteridade, onde, muitas vezes, a posição do antropólogo permite que este acesse questões inacessíveis aos nativos quanto a sua lógica cultural, como também, questões até então inacessíveis ao próprio antropólogo quanto a sua lógica cultural de origem.
    Não sei até que ponto essa reflexão é pertinente. De qualquer forma, fica a questão!!

  5. Maria Luíza Albuquerque

    Primeiramente, meus parabéns pelo ótimo texto. Creio eu que ele abrangeu todos os pontos a serem destacados. Só gostaria de introduzir aqui alguns questionamentos, ou umas dúvidas que talvez tragam reflexões para nós ou que possam vir a abrir um tópico para discussão em próximos comentários, mas vou logo adiantando o pouco conhecimento que tenho sobre o xamanismo e talvez por isso mesmo esses questionamentos possam ser que fiquem vagos, que são os seguintes questionamentos: Quando Lévi-Strauss diz que para que a cura seja efetivada é necessário que haja a crença, pelo feiticeiro, pelo “paciente” e pela coletividade, na magia que está sendo realizada e que as pessoas deveriam estar inseridas na personalidade social do grupo em questão para assimilar e compreender tais fatos subjetivos, o que ocorreria com esse pensamento, se fosse descoberto pessoas que não possuíam nenhuma crença na magia, e ainda assim, foram curadas pelos poderes de um xamã ou feiticeiro? O autor nos fala de uma crença que é induzida e manipulada pelo feiticeiro. Mas, e se ocorresse também de um grupo de pessoas, crentes na eficácia da magia do xamã, fossem ao seu encontro e, da mesma forma, não conseguissem se curar? Como Lévi-Strauss explicaria esse acontecimento? Estes dois casos não iriam contra uma parte do que foi observado e concluído por ele? Isso deixa um ponto de interrogação nos casos de curas xamanísticas realizadas em pessoas descrentes do assunto, mas que por estarem sofrendo de graves doenças, mesmo sem fé alguma no processo que iria ser realizado pelo xamã, se submeteram a “experiência” e foram curadas.
    Bom, esses são só alguns dos pensamentos que permeiam minhas observações durante a leitura desse texto. Gostaria de ver a opinião dos outros colegas para, quem sabe, eu venha a descobrir algo que o próprio Lévi-Strauss tenha dito, mas que tenha passado despercebido por mim.

  6. Antonio Marques

    Achei ótimo o texto, muito bem escrito e bem organizado!
    O Testo suscitou alguns questionamentos acerca de praticas comuns nas sociedades modernas e suas religiões, como por exemplo a questão do “encosto” e o mal uso da palavra(maldição) entre as religiões protestantes principalmente.
    O “encosto” se caracterizaria como a magia que Lévi-Strauss cita? Pensar esse tipo de pratica em uma sociedade moderna e extremamente utilitarista, é complicado na medida em que o fator econômico se sobrepõe exatamente ao fator de agregação social.
    O encosto se revela como magica na medida que é constatado e se expressando em estados emocionais e econômicos!

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