O Efeito do Crer. A Mente Pode Curar? (Um comentário sobre a Eficácia Simbólica)

Por Marie Christine e Álvaro Botelho

 

  O texto escrito por Lévi-Strauss intitulado Eficácia Simbólica inicia-se com um comentário sobre o primeiro grande texto mágico-religioso conhecido e proveniente da América do Sul, publicado por Wassen e Holmer ,e registrado originalmente por um informante indígena.

O antropólogo então o descreve como um longo encantamento, em forma de canto, de 18 páginas, divididos em 535 versículos, de autoria do povo Cuna, habitantes do território da República do Panamá. Tal encantamento tem como objetivo ajudar em um parto difícil, sua execução é excepcional e rara, feito a pedido de uma parteira que não consegue realizar o parto com êxito.

O canto é feito por uma espécie de médico inato, um xamã, denominado na cultura Cuna de nele. O encantamento se inicia por uma descrição da perplexidade da parteira, da sua visita ao nele, a partida do xamã ao encontro da parturiente, sua chegada, preparativos, invocações e confecção das imagens sagradas (nuchu), que representam espíritos protetores que o ajudam e que o xamã direciona e conduz à morada de Muu, força responsável pela formação do feto.

O encanto é a busca do purba perdido, a alma da futura mãe que Muu, ultrapassando suas atribuições, se apossa indevidamente. Depois de inúmeros feitos e um combate o purba é restituído e o parto se dá, o canto tem seu fim na pronunciação de recomendações tomadas para que Muu não se vá depois de seus visitantes, por fim, as relações com Muu voltam a ser amistosas e a ordem é restabelecida.

Lévi-Strauss ainda ponta um aspecto importante do texto tribal e a interpretação de Wassen e Homer em relação às expressões ritualísticas, nas quais “o caminho de Muu” e a “Morada de Muu” se referem à vagina e ao útero da mulher grávida e não a um mítico caminho ou a uma morada mítica. A jornada em busca de Muu e todo o desdobramento, ou seja, a batalha que ocorre, através do canto, utiliza metáforas, há assim, uma geografia paralela do mundo dos espíritos, com o caminho do bebê do útero e sua saída da vagina.

Isso pode ser melhor compreendido ao se entender as noções de purba e de  niga; a primeira noção pode ser traduzida como alma, esta que é possuída por tudo e sujeita ao roubo; a segunda noção pode ser entendida como força vital e apenas animais e humanos detém e não pode ser roubada. Cada parte do corpo tem seu purba e o niga é união harmoniosa de todos os purba, estes que por sua vez regem a função de um órgão particular.

Durante  a execução do ritual dos Cuna há a descoberta de outros purba e se encara o purba do útero como o responsável pela desordem, ou seja, pela doença. São as forças que administram o desenvolvimento do feto e lhe concedem capacidades, Muu e suas filhas, que causam um desequilíbrio, aprisionando e paralisando outros purba destruindo a cooperação outrora existente; contudo, no decorrer do ritual, Muu não pode ser expulsa ou destruída durante a libertação dos outros purba, pois ela é parte do equilíbrio, o que se faz necessário apenas é que o seu comportamento desviante seja corrigido.

O ritual seria a forma de levar o corpo, sua força vital ( niga), e suas almas (turba) ao equilíbrio novamente. Trata-se da invocação de determinadas representações psicológicas para combater um mal fisiológico, uma manipulação psicológica do órgão adoecido orquestrada pelo xamã. Mas, isso não bastou a Lévi-Strauss, o que o levou a uma investigação: quais são as características dessa manipulação?

 

 

A  Realidade e o Mito: A Técnica da Manipulação Psicológica.

O primeiro ponto a chamar atenção de Lévi-Strauss sobre o canto é que sendo teoricamente sua temática a batalha contra os excessos de Muu, esta é pouquíssimo descrita, a maior parte do encanto lida, de maneira muito mais detalhista, com partes aparentemente mais secundárias  como a chegada do xamã, seu chamado pela parteira, a saída e a entrada desta, tais partes, também encerram uma característica muito peculiar que é sua densa  e meticulosa repetição.

Observando as características já descritas, Lévi-Strauss percebe que a intencionalidade da técnica utilizada pelo xamã é a de que a doente reviva certas situações, que provocam uma reflexão em meio a sua dor e fatiga. Todo esse processo, que é controlado pelo xamã, traz um arcabouço de eventos que tem como palco os órgão internos da paciente. Existe assim, a passagem da realidade banal para o mito, que leva a passagem do mundo físico ao fisiológico.

Há, em dez páginas que descrevem o ritual, união de temas míticos e fisiológicos ansiando tornar impossível a diferenciação de seus respectivos atributos. Os mitos e a fisiologia se confluem, os termos se reúnem e permitem que a doente tenha características semelhantes aos nuchu  e que estes também compartilhem com ela certas características.

O canto mágico reconstitui uma experiência real, faz a doente se sentir penetrada; e, ao mesmo tempo, nomeia, dá significação, as dores uterinas, apresentando-as como animais e monstros moradores do útero, de forma que, estas possam ser apreendidas pelo pensamento. O mito e sua narrativa se tornam ferramentas, que restituem uma experiência real, substituindo os protagonistas e propiciando assim a realização do parto, através da visualização afetiva dos focos de resistência.

O ritual atinge  seu fim estabelecendo  um equilíbrio, a construção de um conjunto sistemático e o restabelecimento de uma ordem não ameaçadora. Chega-se assim, ao témino do segundo ponto e diante das características da manipulação já descritas, Lévi Strauss se pergunta: no que se consiste de fato a cura?

O Tornar Pensa: A Constituição da Cura

             Lévi-Strauss inicia afirmando que a constituição da cura é o tornar pensável uma situação inicialmente dada como em termos afetivos, é o tornar aceitável e suportável para o espírito aquilo que o corpo não aceita nem suporta. No caso do parto difícil é a dor que assola a grávida em trabalho de parto, que encerra o elemento de caos, e que por meio do xamã e do mito, deve ser reintegrada num conjunto onde todos os elementos se apóiem mutuamente.

Existe neste processo a importância da crença no mito por parte da paciente, tal fé só é possível graças a uma certa ambientação simbólica, que permite a familiaridade a doente. É no processo desta crença que ocorre uma racionalização ( entendida como o tornar pensável e compreensível tal fenômeno) uma compreensão por parte da paciente, que desencadeia um processo de cura. A doente acredita no mito; e não apenas ela mas toda a sociedade que a congrega.

Observando este aspecto Lévi-Strauss faz então um paralelo entre xamanismo e psicanálise, afirmando que ambas conduzem a consciência à resistências e conflitos mantidos inconscientes  e que a cura é possibilitada por uma experiência específica que leva a doença ao desfecho( ab-reação no linguajar psicanalítico).

Sendo assim, a cura xamânica e a cura psicanalítica  seriam as mesmas, porém com algumas inversões que são: (a) a ideia de um mito social na cura xamânica, recebido do exterior e não correspondente a um estado pessoal passado; enquanto na psicanálise o mito é individual construído pelo paciente com elementos da sua própria historicidade. (b) Na cura xamânica o xamã fala e através desta estreita mito e realidade promovendo a re-organização do conflito; em contrapartida na psicanálise quem fala é o doente  e através de sua fala se dá a reorganização do conflito.

Lévi-Strauss ainda traz para seu texto uma pequena análise das técnicas de Sechehay, para provar que a manipulação dos complexos humanos se dá através de simbolismos que não necessariamente precisam ser verbalizados, mas que repercutem de alguma forma, seja na cura da esquizofrenia como em um procedimento psicanalítico ou num ritual como aquele encontrado entre os Cuna.

Até o fim do texto Lévi-Strauss disserta sobre xamanismo e psicanálise,  com o intuito de superar as diferenças encontradas  em ambas, nestas últimos momentos ele coloca a ideia de eficácia simbólica como uma propriedade que induz uma estrutura sobre outra que podem se edificar nos inúmeros níveis de ser vivo, ou seja, os processos orgânicos, psique, inconsciente e pensamento reflexivo-coerente. O antropólogo francês  ainda coloca a ideia do inconsciente como função, mais especificamente a função simbólica, leis governantes;e que trabalham, a estrutura inconsciente de todo indivíduo.

 Concluindo e Refletindo

             Pensar o texto de Lévi-Strauss traz enormes reflexões e permite a afirmação de que a manipulação psicológica pode reorganizar tanto enfermidades psicológicas quanto aquelas de caráter fisiológico.

Existe no processo de cura toda uma re-vivência , uma experiência que leva através de um  complexo fenômeno à cura, há a crença como parte fundamental também da equação, pois sem a crença no mito e nas habilidade do xamã dificilmente o parto ocorreria de maneira eficaz.

Observando estes fato e olhando para a atual realidade, pode-se perguntar “ como a Eficácia Simbólica de Lévi-Strauss, pode ser aplicada a outros rituais, e observando as curas milagrosas a partir de orações, levanta-se outra questão: pode-se entender , ou ao menos, ter um vislumbre de tal entendimento, sobre estes fenômenos indiscutivelmente reais, a partir do texto de Lévi-Strauss?

5 Comentários

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5 Respostas para “O Efeito do Crer. A Mente Pode Curar? (Um comentário sobre a Eficácia Simbólica)

  1. Rodrigues

    Ótimo texto! muito bem construído pelos autores, e mostra com clareza todos os pontos importantes do texto colocados por Lévi-Strauss. Abaixo coloco algumas considerações do texto:
    O xamanismo é feito pela participação de três envolvidos, o xamã (sábio), o doente, e o grupo. Isso significa que a eficácia simbólica implica processos de integração social, no qual o doente participará de um ritual junto com outros indivíduos, para pôder obter sua cura. No texto, Lévi-Strauss trabalha com a ideia de que os símbolos da sociedade podem fazer um efeito psíquico na vida dos indivíduos e trazer respostas necessárias para o bem estar social, emocional e físico daqueles envolvidos em determinados rituais; isso à partir do sentido que estes dão a um conjunto específico de representações, que estão postos diante do grupo social que os mesmos fazem parte. Desse modo, percebe-se a eficácia dos símbolos na sociedade, e também como estes atuam na medida em que todos o atribuem um determinado significado.

  2. Nossa, muito bom o texto, acho que nem tem muito mais o que expor como comentário. Mas de fato o que é para mim bastante importante é o fato de que Strauss afirma de modo categorico a permissividade do sujeito frente ao xamã, a possibilidade de aberturo psíquica através da negação da racionalidade. Há que se lembrar que essa ligação entre o se “permitir” e ser curado é estabelecida por fundamentos e efeitos simbólico que a própria psicanalise faz. Seria portanto coerente pormos a nossa ciência psiquica como nossa instituição produtora e mantenedora de xamãs modernos no mundo ocidental? Na qual sobretudo a ciência é o cerne para o acreditar na cura psiquica, e sobretudo nas piscicossomáticas? Se formos observar o quanto a nossa ciência que se afirma neutra tem negado a ligação entre a mente e o corpo em sua história e o quanto se está dando importância e relevância a isso atualmente… Temos xamãs sendo formados todos os dias, e nossa possibilidade de escolha e tratamentos por vieses simbólicos não são limitadas.

  3. Wellton toucou num ponto interessante, a questão da cura através dos símbolos que acontece na atualidade. Seria o caso de se pensar os limites da doença verdadeiramente física? Até onda a cura se da pelo falo de crermos na eficácia de um medicamento receitado por uma autoridade na área, talvez isso se de pela crença do senso comum na ciência como conhecimento a prova de falhas. Isso gera debates inclusive na própria medicina em torno da relação medico paciente, questionando a validade das consultas onde o medico simplesmente abaixa a cabeça, escuta os sintomas e receita.

  4. Ana Patrícia Braga

    Ótimo texto !!!! Fica para mim, no entanto, muitas dúvidas em relação a manipulação da mente sobre o corpo na obtenção da cura! Na comparação com a psicanálise, me lembrei dos efeitos de hipinose no processo de regressão de memória, como as nossas lembranças podem ser manipuladas e direcionadas, conduzidas a obtenção da superação dos problemas do passado, o que me lembrou também o processo xamã no parto difícil! Mas ainda tenho uma resistência em acreditar na total força da psique, mesmo com toda a coletividade, na obtenção da cura (se é que entendi bem o que Levi-Strauss estava querendo dizer), porque me parece muito vago (até pela minha falta de aprofundamento na área) a discrição do processo psíquico de materialização das vontades e desejos de obtenção de cura !! Para mim é fato o poder da mente. Lembro do caso do mendigo que morreu congelado preso em um frigorífico desativado, porque pensou que estava ligado, chegando até a relatar todo seu sofrimento nas paredes do local. No entanto, mesmo com todos esses relatos e exemplos, ainda caio no clichê da frase célebre de Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra, do que toda a nossa vã filosofia.”!

  5. Maria Luíza Albuquerque

    Parabéns aos autores do texto. Esse texto dá uma continuidade aos pensamentos já apontados no texto do Feiticeiro e sua Magia, e assim como o meu comentário sobre ele, retorno ao mesmo viés de pensamento. Nesse texto, identifico uma situação semelhante, pois ainda é afirmado de forma mais detalhada que a cura acontece devido à crença no mito por parte do paciente, e tal crença só seria possível graças a certa ambientação simbólica, que permitiria a familiaridade do doente. O xamã, mais uma vez, é encarado como aquele que manipula psicologicamente o processo de cura do paciente, e a cura se daria devido a essa manipulação. A eficácia simbólica, porém, poderia ser contestada levando-se em conta casos em que a pessoa, que irá se submeter ao trabalho do xamã, não possui fé no processo e nem está inserido num meio social que acredita nisso. Podendo também trazer a tona uma questão: até que ponto a cura se dá por motivos psicossomáticos (atrelados simplesmente ao poder que a mente tem de curar a si mesma, por meio de estímulos ou manipulações psíquicas feitas pelo feiticeiro ou xamã) ou essa cura poderia ser realmente realizada por fatores sobrenaturais? No caso do texto, trata-se não de objetos, mas de um mal causado por entidades espirituais, mas como seria explicado os casos de desmaterialização e rematerialização, de substâncias e objetos, feitos pelos próprios xamãs? Ou até mesmo as curas milagrosas, através de simples orações, que podem ser feitas para outras pessoas que nem estão sabendo que estão sendo agraciadas pela oração de alguém?
    A eficácia simbólica, nesses casos, entraria no mesmo conflito ao qual foi exposto no final do texto dos colegas. Ainda me restam dúvidas, de que forma o texto de Lévi-Strauss se aplicaria nestes casos?

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