Pluralismo, Modernidade e Tradição: Transformações no campo religioso

Por Osmar Coelho e Ravana Dias sobre o artigo de Carlos Alberto Steil

A sociedade atual é decorrente de mudanças bastante acentuadas promovidas pela “razão secular” a partir das Ciências positivas, e pela Religião que ao receber influencias culturais as mais diversas, emerge numa outra perspectiva de renovação e transformação em que em que as pessoas passam a ter maior visibilidade e autonomia nas suas preferencias de escolhas religiosas. Soma-se a este fato o destronamento do monopólio de uma igreja que possui status de exclusividade. Em sua avaliação sobre a dinâmica da religião nas sociedades latino-americanas, Steil destaca a profunda transformação e reordenamento destas que gerou um pluralismo religioso que parece não ter mais limites à diversidade; e enumera a multiplicidade de tendências em ascensão: Religiões institucionais ou não, tradicionais, efêmeras, ecumênicas, efêmeras, etc. Penso que a temática religiosa da dicotomia ainda persiste, porém diluída numa poli polarização de diálogos mais libertários. A religião que era fortemente estruturante, agora pela diversidade é reflexiva e também estruturável; se por um lado a pluralidade é fruto da dinâmica moderna da sociedade, está também contribui para a secularização, a qual por sua vez ativa e multiplica os universos religiosos. Certamente que a secularização e a diversidade religiosa estão associadas a um mesmo processo histórico que favorece as sociedades a liberdade de existir e funcionar no campo religioso.  O pluralismo religioso dito por steil nos remete a uma pergunta capital, é possível dialogar nesta diversidade, traduzindo a sua fala, neste “politeísmo religioso”? A pluralidade religiosa e a secularização são fruto da dinâmica interacional da sociedade ao refletir sobre si, e pra fora de si, porque precisa se encontrar e encontrar saídas, fluidez na sua existência; se no campo social a população não viu suas promessas realizadas de “bem- estar social”, no campo religioso ao menos parece ter encontrado certa correspondência de entendimento aos seus anseios, não direi afirmativamente que lhe seja satisfatório, mas percebesse que a reordenamento possibilita vivencias experiências tanto coletivas quanto individual de aspectos sui-generis, e faz com que as múltiplas escolhas e consciência de pertencimento facultem a permanência no tradicional ou inserir-se no campo ideológico-libertário ou místico-carismático, com ou sem ausência de compromisso explicito religioso institucional. Poderá existir algo nocivo à identidade religiosa seja ela institucional ou não? o pluralismo é ameaçador ? Steil divisa dois aspectos qual sejam, a de reforçar a exclusividade, ou abertura para o diálogo e a tolerância; ao mesmo tempo em que faz uma reflexão sobre a dinâmica religiosa popular, no contexto do mundo moderno, relacionando as possibilidades de arranjos com a tradição inclusive discordando dos que se opõem a esta associação.

A PRIVATIZAÇÃO DA RELIGIÃO E O TRANSITO RELIGIOSO

Com relevantes citações de Ari Pedro Ora e Peter Brown destaca que há uma tendência religiosa do culto individual com rituais próprios, e modelamento religioso provenientes de diversos sistemas religiosos que tem se refletido na cultura de mercado dos bens simbólicos e através da globalização houve aproximação acentuada da inter-culturalidade; Atores religiosos podem efetivar mudanças em sua praticas espiritualistas para espaços sagrados e/ou crenças sagradas. Segundo jean Séguy  o campo religioso desenvolveu outros sistemas denominados de “Religiões analógicas ou metafóricas” que se caracteriza por orientação espiritual, ecológica, terapêutica ou psicológica. Entretanto, Steil pondera que todos os sistemas religiosos deveriam ser vistos como complementares e não excludentes, e que não haveria competição entre si.

Há um re-encantamento do místico e da cura, uma nova forma de crer em processo, elaborada, catalisada tanto pelas religiões populares quanto pela tradição religiosa para Steil, há uma nova configuração onde a tradição é reinventada, o moderno incorporado e reavaliado. Acima do racional ou teológico das instituições religiosas, há uma força do emocional, do sensível emergente que relega a outro plano os dogmas e verdade da fé.

O RE-ENCANTAMENTO DO MUNDO

A cosmovisão do encantamento deu lugar à emoção, ao sentimento mágico. Sem critérios de analise filosófica, sociológica, livre em sua estruturação, composto de enlevos de mistério, do hermético, de forças e energia não identificadas, da magia, etc; a problemática existe quando a população aceitar sem reflexão, quando cientistas sociais constroem narrativas, descreve simplesmente sem empírico do fazer e esclarecer. E importante que na integração das experiências místico-espirituais, no universo das novas formas de crer, haja uma perspectiva na busca dos sentidos como linguagem significativa, que pretenda relacionar razão e coração, experiências e vivenciam pessoais ou coletivas.

Nas articulações entre o sagrado e a cura se configura de um lado as religiões populares e de outro as novas formas de crer, perfilando um ordenamento onde através das religiões populares se efetiva uma expectativa por milagres e cura concreta e especificas, desde elaborados rituais, grandes concentrações, em espaços domésticos com benzedeiras e benzedores populares; já as “ovas formas de crer” apresentariam uma dinâmica voltada para eliminação de estados mórbidos ou de preenchimento do vazio, da solidão originária da modernidade.   A interpretação que faço atenta para uma configuração mais “alopática” das religiões populares em que se eliminaria a ferida, a doença; enquanto que nas “novas formas de crer” configuraria um tratamento homeopático –holístico, onde se deveria buscar a origem, a causa da doença, recuperando a auto-estima  do doente, fornecendo-lhe poder  para o controle e domínio sobre a doença.

Conclusão: Fica a compreensão e a certeza de que o assunto não se esgota, numa tradução da fala de Steil, mas que possibilita uma ampliação do conhecimento e de abordagem sócio antropológicas na discussão constitutiva da religião como um elemento vital nos processos de interpretação dos fatos sociais e produção de identidades; e que há evidencias de que as vivencias e experiências pessoais e coletivas ultrapassam os ditames e o controle das instituições coletivas.

 

2 Comentários

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2 Respostas para “Pluralismo, Modernidade e Tradição: Transformações no campo religioso

  1. Para além da pluralidade das religiões senti falta no texto de contextuar essa possibilidade de escolha como sintoma de nossa sociedade atual que presa pela liberdade dos individuos de modo que estas não oprimam o outro. Obvio que nesses contextos há conflitos de quem deve ser mais respeitado, há portanto uma tesão entre grupos. Percebo que essa tensão ocorra também entre grupos religiosos e privar o atrito entre elas deveria não apenas fazer parte dos pertencentes a estas mas os que defendem a liberdade de escolha.

  2. Swellington Albuquerque

    As religiões nas suas formas plenas parecem ser sempre dinâmicas e existe conexão entre elas e um convívio muitas vezes sem e com atritos, mais pensar as sociedades modernas como um ambiente de multiplicidade religiosa, é entender que podem surgir vários elementos que permitem um indivíduo transitar nos mais diversos sistemas simbólicos, e incorporar múltiplas crenças das mais variadas religiões e criar um sistema simbólico próprio e por que não único para ele mesmo.

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