Um estranho no ninho

“Um estranho no ninho: Uma experiência protestante em escola laica, em Recife” de Roberta Campos por  Emerson Silva e Marie Grenet

Uma das principais características da modernidade é o pluralismo religioso. Quando um determinado tipo de religião perde o seu monopólio em uma determinada cultura, abrir-se-á consequentemente espaço para uma diversificação religiosa. A título de exemplo podemos citar a perca da hegemonia católica no processo republicano brasileiro, onde o catolicismo romano perdeu muito de sua influência, e, por conseguinte abrindo espaço para um reconhecimento social de um mosaico religioso brasileiro. O texto vem colocar em xeque pontos entre o discurso ideal e a ação real, como se dá a prática dessa lógica multiculturalista brasileira entre os membros da sociedade e mais particularmente entre crianças de contextos sociais homogênios e heterogênios. Analisando um caso de uma jovem que sofreu bullying, A professora Roberta Campos irá tentar nos mostrar, no seu artigo: Um estranho no ninho: Uma experiência protestante em escola laica, em Recife, a relevância de se estudar algumas configurações infantis no ambiente escolar, com vistas no aprendizado de como essas crianças vivenciam as divergências religiosas nesse espaço educacional.

Proponhamos de apresentar nessa primeira parte noções gerais dessa lógica multiculturalista e a perda desse tradicionalismo religioso. Logo após, iremos expressar brevemente o conceito de ethos na religião. Na sequência iremos enfatizar esse caso etnográfico fazendo uma conexão com as teorias de Goffman, tangenciando com a ideia de estigma e carreira moral. E por fim concluiremos este ensaio abordando o choque do ethos protestante com a lógica sincrética, característica da cultura brasileira.

O Multiculturalismo representa a coexistência e legitimidade de diversas culturas e religiões em uma mesma sociedade. A perda da supremacia católica, no período da república, que tem como motivos: a concorrência das lideranças religiosas e políticas, a ausência da influência católica no liberalismo e a preocupação por parte do regime no possível fato de se prescindir da religião com vistas na legitimação do poder, proporcionou o inicio daquilo que irá se chamar mais tarde de diversidade religiosa. Algumas décadas mais tarde esse hibridismo aparecerá bem notoriamente, exemplifico aqui essa ideia citando o maior fenômeno religioso brasileiro considerado atualmente: o avanço do neopentecostalismo no Brasil. É importante salientar também, que todo esse hibridismo cultural vigente se acentua na intensificação dos processos de globalização econômica.

O conceito de ethos segundo o antropólogo Clifford Geertz é os aspectos morais, estéticos e a disposição, que é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e a seu mundo que a vida reflete (1926; p. 93). A título de exemplificação podemos citar o conceito de “modelo”, dividido pelo mesmo autor em modelo “de” e modelo “para”, onde este representa as práticas do sistema simbólico e aquele o complexo simbólico. Este modelo “de” configura-se como a visão do mundo, que é a cosmologia e a categorização, através da qual uma sociedade se pensa e se interpreta. E o modelo “para” corresponderia ao ethos, ou seja, o conjunto das práticas que formam a qualidade da vida de um povo. Tendo como base o artigo investigado, e o livro A Ética Protestante e o espírito do capitalismo de Max Weber, podemos ilustrar o ethos protestante e sua visão do mundo.

Segundo Weber, diversos elementos do protestantismo, que expressam o ethos dessa religião, implicaram nas relações familiares, sociais, econômicas e políticas o princípio de ascese, abnegação e trabalho. O auotr, ao analisar a religião protestante calvinista identifica uma cosmologia que irá influenciar o desenvolvimento do capitalismo no oeste da Europa. A base da doutrina Calvinista está fundamentada em cinco pontos: Depravação total, onde o homem desde queda do Éden (entende-se queda aqui com o fato escrito no capítulo três do livro bíblico do gênese, que fala do pecado de Adão e Eva) está impossibilitado de se aproximar novamente de Deus através de suas próprias forças, haja vista a sua condição moral (de ter pecado contra Deus); Eleição incondicional, nesta abordagem a condição de eleição ao reino dos céus é trabalhada. Conforme explica essa teoria, o indivíduo era eleito incondicionalmente por Deus (tendo como pressuposto unicamente a vontade divina) para a salvação; Expiação limitada, fala que Jesus Cristo morreu por um grupo determinado de pessoas (não foi um sacrifício por todos os homens) que lhe foi entregue por Deus desde eternidade; Graça irresistível, esta doutrina afirma que é impossível o homem rejeitar a graça divina que o salvou e Perseverança dos santos, onde o homem, haja vista sua condição de predestinado por Deus para salvação, permanecerá no seu estado de salvo segundo tão somente a vontade de Deus. Weber identifica no segundo ponto do Calvinismo uma teoria que irá contribuir consideravelmente para a expansão do modo de produção capitalista, onde, segundo João Calvino, um dos sinais dessa predestinação para a salvação seria a prosperidade. Os fies, tendo em vista a sua salvação, trabalhariam cada vez mais, para com isso acumular riquezas e serem prósperos. A ideia de salvação, biblicamente falando, diz respeito há um lugar onde Deus preparou para todos os salvos: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram” (Bíblia, Apocalipse cap. 21. 1-4). Imbuídos dessa ideia os crentes Calvinistas buscavam sempre adquirir bens, sendo este o indicativo de salvação.

O artigo apresenta uma adolescente protestante, Juliana, com princípios ascéticos, onde esta, influenciada pelo seu ethos religioso, se recusa a vivenciar alguns hábitos, tidos pela sua religião protestante como profanos, bastante comuns entre suas colegas de classes: assistir novelas, fazer leituras contemporâneas, falar de sexo, etc. Possui exemplaridade no seu comportamento escolar: boas notas, ausência de cola, boas relações com os docentes e aplicação nos estudos. De fato este ethos protestante acha legitimação numa visão de mundo com base na sua leitura bíblica.

Nesse artigo, como já foi enunciado anteriormente, é apresentado o caso de um bullying religioso em uma adolescente, Juliana, no contexto duma escola laica e privada. Essa « perseguição », segundo as próprias palavras da autora, se expressa por uma pressão moral constante e por violências físicas. A vítima liga esses comportamentos com o seu próprio: para ela, a razão de ser perseguida se deve pelo fato de possuir um comportamento exemplar, ser aplicada, tirar boas notas, boa relação com os docentes, etc. Contudo, se a exemplaridade do seu comportamento impedia a sua boa socialização, foi só a partir da quarta série que a prática dessa ojeriza foi ligada aos seus valores religiosos, e os alunos terminaram por excluí-la e tiranizá-la devido a sua religião. Esse caso foi então relacionado a uma situação de “bullying”, ou ainda à de “child abuse”, ou seja, Juliana conheceu uma reinterpretação e uma reorganização biográfica do seu passado por seus colegas (p.163). Esse processo de indução, teorizado especialmente por Goodman, pode ocorrer de maneira inconsciente pela ênfase dada a alguns aspectos do comportamento, as quais a representação do indivíduo será reduzida, envolvendo assim o processo de categorização. De fato, estamos em frente de um caso de descriminação religiosa na escola: ou seja, um grupo, ou um indivíduo, fica em situação de desigualdade com outro grupo, ou indivíduo, onde este por sua vez vai impor sobre aquele sua dominação tanto física quanto ideológica. Esse indivíduo não vai ter o mesmo acesso as atividades, direitos ou recursos. Essa discriminação é de fato ligada à intolerância religiosa, onde o pertencimento a um particular é considerado como uma diferença inaceitável pelo grupo. Contudo, mais que uma discriminação, Juliana conheceu uma estigmatização, pois essa diferença é pensada como negativa e é desvalorizada. Assim Goffman, sociólogo e linguístico canadiano, teorizou o estigma como traços, comportamentos ou reputação arbitrariamente determinados como depreciativos e aos quais a identidade do outro vai ser reduzida. Ele apresenta três tipos de estigmas: as abominações do corpo, as culpas de caráter individual e as estigmas tribais, étnicas ou religiosas. Assim, nesse caso, o estigma é religioso. A estigmatização envolve uma ideologia segregacionista permitindo de justificar sua própria superioridade, e de fato a inferioridade do outro, que seria para Juliana a sua religião expressada pelo comportamento. O grupo majoritário vai ter a vontade de corrigir direitamente ou indiretamente essas diferenças, consideradas como degenerações negativas, a fim de normalizar o outro em função de si mesmo. Em frente a essa dominação e controle, os indivíduos portadores de estigmas vão envolver-se em estratégias a fim de reduzir o peso da estigmatização. Goffman enfatizou então o fato que os estigmatizados conhecem um processo de socialização semelhante, ou seja, eles conhecem uma construção do “eu” parecida. Esse processo de construção identitário foi nomeado por Goffman de “carreira moral”. Essa tem duas fases de socialização: a primeira é a incorporação das referencias e das normas sociais, ou ainda o que significa possuir um estigma em função dos padrões normativos da sociedade. A segunda é aprender o que é ter um estigma particular e as consequências de possuí-lo, que foi a situação de bullying de Juliana. Assim, dos quatros modelos de socialização, Juliana parece pertencer ao segundo: o da criança sobre-protegida pela família e vizinhança, ignorando assim o seu próprio estigma pelo controle das informações. Ela o incorpora (o estigma) quando sair desse meio seguro (família), nesse caso na escola, e o ethos religioso que antes era meio de socialização no ambiente familiar passa a ser agora estigmatizado pelos seus colegas de classes. Assim, por insultos, caçoadas e descriminação, a criança vai aprender na escola o seu próprio estigma, que não era um na sua família.

Em um discurso ideal, a escola deveria ser o lugar da alteridade e da tolerância, onde além dos processos educativos de homogeneização social, cada um teria o espaço de coabitar com suas próprias diferenças e de construir-se em função dessas particularidades. Portanto, a escola aparece como o teatro de conflitos e de intolerância religiosa: a coexistência no mesmo espaço de diferentes religiões e ideologias, como catolicismo, protestantismo e ateísmo, envolve tensões e relações de poder desiguais. A autora pergunta como a diversidade é vivida no espaço escolar brasileiro, e se existe uma reprodução dos valores ideais multiculturalistas e hierárquicos. Assim, o artigo oferece uma analise das relações verticais e horizontais no espaço escolar, em relação com o ethos dos alunos.

O Brasil, considerado um dos países mais populosos, recebeu em toda a sua história imigrante de diversas partes do mundo. Cada um que aqui chegava arrumava um jeito de disseminar suas crenças, valores e gostos. No período de permanência dos holandeses no Brasil, por exemplo, as missas celebradas nas igrejas católicas da cidade de Olinda, foram substituídas por cultos Calvinistas. É inquestionável afirmar que o sincretismo religioso é algo próprio da cultura brasileira, todavia como consta também nas literaturas sobre processos culturais e identitários, uma das características da globalização é o reforço das referências culturais. O ethos protestante, vivido por Juliana, nada mais é do que um reforço de sua referência cultural frente o ethos dos seus colegas de classes. Atualmente, essa referência cultural tem se configurado como política social também: cotas para negros nas Universidades, lei Maria da penha (tomando por base a cultural patriarcal brasileira em relação às mulheres) e educação bilíngue, são exemplos desses reforços culturais.

Intolerância religiosa e reforço cultural devem ser repensados, haja vista o exemplo etnográfico do artigo exposto. E a título de debate queremos lançar justamente esse questionamento para a turma: Até que ponto eu devo reforçar a minha cultura sem provocar nenhum tipo de intolerância cultural?

1 comentário

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Uma resposta para “Um estranho no ninho

  1. Swellington Albuquerque

    Muito bom o texto, acho que o Brasil têm essa característica multicultural, por receber essas várias influências religiosas, étnicas, ideológicas, em fim pensar um país com tantas “misturas híbridas” é muito complexo. O sistema educacional brasileiro não está preparado para lidar com os encontros e desencontros das várias culturas que muitas vezes se chocam tornado-se conflituosos, principalmente no campo religioso, por isso se torna difícil discutir uma questão em que não existe um consenso, seria necessário um projeto educacional para discutir e dialogar com as questões limiares, que estão nas minorias, religiões e culturas, para só depois estabelecer um critério de respeito as diferenças. O reforço a cultura está implícito nisso, assim fico muito temeroso quanto a essa questão, acredito que existe um despreparo educacional-pois é o parâmetro que estamos discutindo-para estabelecer o ponto em que não se possa provocar intolerância cultural, isso ainda precisa ser muito discutido.

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